Sexta-feira, 23.04.10
Não sei quando ouvi esta expressão pela primeira vez mas soube-me à maior ironia... Penso que terá sido a uma Professora com mau feitio mas que era respeitada. Paradoxos em decadência caiu-nos assim, sem percebermos muito bem se se referia ao nosso fraco empenho ou a outras falhas que desconhecíamos. Gravei a expressão na memória e só hoje me surgiu de novo. Porquê?
Somos todos paradoxais, essa é que é a verdade. Só que há paradoxos genuínos e paradoxos retorcidos. Hoje é de um bem retorcido que venho falar.
Tudo começou com um post d' O Cachimbo de Magritte. Não sei bem porquê, mas os Cachimbos aglutinaram ultimamente os debates mais interessantes porque implicam dilemas filosóficos e morais... alguns dos debates até se incendiaram, mas os fleumáticos Cachimbos trataram de os apagar a tempo... Este post, no entanto, não provocou reacções, o post que atraiu comentários foi este de Paulo Guinote n' A Educação do Meu Umbigo, o que até se compreende, pois é um blogue de professores para professores e para o público em geral. Aí caiu que nem um meteorito!
Antes de introduzir o texto, só uma provocão aos nossos neurónios e à nossa consciência mais abrangente: a esquerda radical, que mais contribuiu para esvaziar a escola da sua verdadeira função, que mais contribuiu para anular a autoridade dos professores, e ainda quem mais contribuiu para destruir a possibilidade deste ambiente que o autor, Daniel Oliveira, observa numa escola ideal, e que todos sabemos que é o ambiente propício ao estudo e à aprendizagem, à troca de ideias e à reflexão, à autonomia e à responsabilidade, à colaboração e ao convívio saudável, enfim, ao ensaio de uma vida activa, se refira a tudo isto que ajudou a destruir com uma nostalgia lamechas e doentia de tão perversa... Se este não é um verdadeiro exemplo de um paradoxo em decadência, vou ali e volto já...
Aqui vai, A Escola Caviar:
" Quando Daniel Oliveira escreve sobre Educação fico com calafrios equivalentes aos que senti, outrora, quando lia certas coisas do Miguel Sousa Tavares ou do Rangel, versão Emídio.
Com Daniel Oliveira ainda é pior porque ele acumula uma leitura desajustada da realidade das escolas, reflexo – quiçá – de algum trauma mal resolvido da infância ou adolescência (faltou-lhe uma boa secundária da margem sul nos anos 70 para enrijar a pele? ou a dele foi mais melhor boa porque era ainda anti-fascista?) com um lirismo digno de fazer chorar as pedras da calçada, não negando eu que ele tem as melhores intenções, daquelas que tornaram o Inferno um lugar repleto no mau sentido (sim, porque o Inferno até pode ser acessível e desejável por razões apetecíveis e mesmo válidas).
Pelos vistos, Daniel Oliveira visitou uma escola privada e, claro, ficou seduzido pela disciplina, pelo rigor, pela criatividade, pela liberdade, por tudo aquilo que ele e os que pensam como ele no plano teórico ajudaram a não existir no nosso sistema público de ensino.
Conheci uma escola parecida com aquela onde gostaria de ter estudado. O oposto do que as carpideiras do regime, que se dizem “politicamente incorrectas”, defendem. Eles querem a do passado. Nós precisamos da do futuro.
(…)
A escola pública que imagino, por ser para todos, incluindo para os que não têm famílias que valorizem a formação ou têm apenas poucas condições para o estudo em casa, nunca poderia ser exactamente assim. Mas podia ter isto como ideal.
Se os portugueses conhecessem alguns dos melhores sistemas de ensino público por esse mundo fora perceberiam que os mais ferozes críticos da nossa escola vivem num atraso doloroso. A resposta aos problemas no nosso ensino não está na velha escola fria e implacável. Não perdemos nada com a sua morte. Porque era preguiçosa não inovava. Porque era defensiva não se expunha à criatividade dos alunos. Porque não promovia a liberdade desresponsabilizava. Porque era mais castradora criava cidadãos acríticos. O problema não é o que perdemos, é o que ainda não temos. Ainda não chegámos à nova escola. Aquela onde se aprende a aprender. E a gostar disso.
O meu problema com a nossa escola pública não é ter perdido o velho gostinho do atingamente. É ainda sobrar nela demasiado desse sabor.
Daniel Oliveira é um doutor -a pesar de gostar imenso de sublinhar que não o é – nestas matérias, tem um saber feito de imensa observação, argúcia, vibração. Gosta de falar numa escola “estimulante”, onde se “aprende a aprender”, nessa espécie de paraíso terreno que ele encontro numa escola privada estrangeira em Portugal.
Que ele visitou.
A escola que ele gostava que tivesse sido a dele.
E eu acredito.
Porque a escola-caviar é bem mais agradável do que a escola-pescadinha de rabo na boca com que milhares – muitos – de professores e alunos lidam no seu dia a dia. "
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:55
Domingo, 18.04.10
A Europa esqueceu a Islândia mas a natureza tratou de lha lembrar...
O abraço fatal do PS já envolveu sociólogos livres e independentes como António Barreto...
O Presidente diz que não é grego mas está a ver-se grego para regressar a Portugal...
E, finalmente, uma line perfeita para os tempos políticos actuais. A line é do Felix, personagem do filme Encostada às cordas, com a Meg Ryan: raw is workable, rotten isn't...
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:34
Sexta-feira, 16.04.10
Mais um post do Saída de Emergência, desta vez sobre um autor do género fantástico. Com um título provocador: Bom demais para vender bem.
Aí vai:
" Bom demais para vender bem
Caros fãs do fantástico
A partir de agora, num esforço para aproximar ainda mais a SdE e os fãs, os editores vão tentar escrever uma mensagem em todas as novidade da Colecção Bang! Uma mensagem que justifique a publicação da obra, destaque os seus pontos fortes e chame a atenção para as virtudes do autor. Se algumas mensagens parecerem mais apaixonadas, não se espantem, na SdE somos fãs do fantástico e todos os fãs têm direito a falar com paixão!
Vamos então ao Forças do Mercado. O primeiro livro que li de Richard Morgan (que alguns de vocês tiveram o prazer de conhecer pessoalmente quando o trouxemos para um Fórum Fantástico) foi o Carbono Alterado - indiscutivelmente um dos melhores livros de fc que li em toda a minha vida. A seguir devorei Forças do Mercado e não fiquei desiludido. Morgan escreve bem em todos os sentidos da expressão. A sua escrita é crua e violenta, tal como as suas personagens. Estas são complexas e reais, e o leitor acaba por se preocupar e identificar com elas. A imaginação de Morgan é ímpar, alimentada por bons livros, bons filmes e bons jogos.
Tanto Carbono Alterado como Forças do Mercado têm os direitos vendidos para Hollywood. E lendo estes dois livros é fácil compreender porquê. Brutalmente visual, a escrita de Morgan aliada à sua imaginação é uma força da natureza e um dos motores da actual fc. Se Carbono Alterado nos levava para um futuro mais distante, já o Forças do Mercado nos fala do amanhã. Os temas do livro são os temas que não saem das nossas TVs: a globalização no seu pior, as corporações que cresceram até ficarem mais poderosas do que os próprios Estados, os políticos ao serviço não do povo mas das corporações. Um mundo frio, desumano, egoísta, bestial. Uma espécie de Mad Max meets Wall Street. E o nosso herói, com quem nos queremos identificar, em cujo peito procuramos um cantinho quente para nos abrigarmos, afinal é um filho da mãe como todos os outros. Ou será que não?
Uma colecção de fantástico que se preze tem de ter autores como Richard Morgan. Vendem pouco mas têm de ser publicados. E vendem pouco precisamente porque são muito bons. Bons demais para chegarem às massas. Bons demais para leituras preguiçosas. Bons demais para quem lê enquanto ouve música e deita o olho à televisão. Autores como Morgan são bilhetes para locais distantes. Mesmo vendendo mal, são um orgulho de publicar. Espero ter conseguido deixar alguns fãs com água na boca...
Um abraço e votos de boas leituras,
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:25
Quarta-feira, 17.03.10
Do Dias com Árvores, este poético post sobre salgueiros e vento. Paulo Araújo refere na resposta ao meu comentário que o título foi inspirado num romance para crianças de Kenneth Grahame, mas a mim lembrou-me de imediato o vento nas árvores dos filmes de David Lean.
" O vento e os salgueiros



Salix atrocinerea Brot. [em cima os amentilhos femininos, em baixo os masculinos]
As árvores europeias mais comuns não se destacam pela floração vistosa. Muitas delas confiam ao vento o trabalho de polinizar; e, como ele não é caprichoso e faz o serviço de graça, não há razão para tentar seduzi-lo. As flores masculinas surgem em cachos pendentes e flexíveis - os amentilhos - que foram feitos para dançar ao vento, largando o pólen enquanto se saracoteiam. As flores femininas, por seu turno, quase não se vêem: basta que estejam lá, abertas para receber esse pó fecundo que tantas alergias nos provoca. Carvalhos, bétulas, avelaneiras e amieiros, todos eles optaram por esse modo de reprodução que dispensa a ajuda das abelhas e de outros insectos diligentes.
À primeira vista, os salgueiros (género Salix) fariam igualmente parte do clube das árvores auto-suficientes. Afinal, as suas flores também vêm dispostas em amentilhos, e não são particularmente chamativas nem pela cor nem pelo cheiro. Existem, porém, duas diferenças cruciais: os amentilhos não são flexíveis, e há-os de dois tipos, masculinos ou femininos. É que os salgueiros são dióicos, querendo isto dizer que há árvores dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. Os amentilhos masculinos não se balançam ao vento, e os femininos não se esforçam por passar despercebidos. A revelação de que os salgueiros são polinizados por abelhas e mariposas não surge assim como surpresa. E há recompensas para garantir que os bichos cumprem a tarefa de bom grado, pois tanto as flores femininas como as masculinas estão equipadas com nectários. Tirando isso, umas e outras adoptaram um formato minimalista: as masculinas são quase só estames, e as femininas reduzem-se aos ovários.
A dispersão das sementes é a fase do ciclo de vida dos salgueiros em que eles pedem ajuda ao vento. Para melhor esvoaçarem, as diminutas sementes vêm envolvidas por pêlos sedosos. É o contrário do que sucede com os carvalhos: embora eles sejam polinizados pelo vento, as bolotas que produzem nada têm de aerodinâmico. E há ainda outras árvores, como os choupos e os plátanos, que usam os bons ofícios do vento em todas as fases da sua propagação.
Com a sua copa baixa e arredondada, o salgueiro-preto (Salix atrocinerea) é um dos salgueiros mais abundantes no nosso país, formando bonitas galerias ao longo de rios e de outros cursos de água. É também, por florir precocemente, uma importante planta melífera numa altura do ano em que são escassas as flores. Já o tínhamos mostrado em Santo Tirso acompanhando as curvas do rio Ave. Corria então o mês de Fevereiro e a floração estava no auge, mas agora que Março vai embalado já não sobram muitos dias para ver o espectáculo. Uma observação atenta de uma fiada destes salgueiros permite, mesmo ao longe, diferenciar o amarelo das copas masculinas do verde das femininas.
As fotos de hoje foram tiradas na freguesia do Campo, em Valongo, ao fundo de uma elevação onde se instalou uma grande pedreira para extracção de xisto. Curiosamente, os salgueiros não colonizaram as margens do rio Ferreira, mas apenas as de um magro ribeiro - pouco mais que um fio de água, inteiramente escondido pelas árvores - que nele ali desagua.
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:47
Domingo, 28.02.10
Do Jardim de Micróbios, este post do John, Sem Título. Gosto muito das suas análises literárias e cinematográficas, sempre ousadas e inovadoras. Com personagens complexas, sombrias e inquietantes. Desta vez é o Dracula. Nem mais. Nunca me aventurei nestas leituras sobre as criaturas da noite, mas ainda vi o Dracula do Francis Ford Coppola com um magnífico Gary Oldman talhadinho para o papel. Já conta, não acham?
" Sem Título
Invejo as pessoas - os escritores, se quiserem - que têm a capacidade de escrever contos. Contos no sentido de shortstories, uma narrativa de poucas páginas, coerente, com princípio, meio e fim, e capaz de de agarrar o leitor. Eu, por experiência, sei que não consigo: tentei várias vezes, mas mas ficções que crio tendem a crescer bastante, a expandir-se para além dos limites que lhes atribuo. Não sei ser sucinto, o que também é capaz de explicar o meu problema com a escrita de títulos. No que a contos diz respeito, o melhor que consegui foi um conto, escrito há oito anos, com nove páginas (com espaçamento de 1,5 linhas), que fazendo parte de uma história maior, funciona bem sozinho. Mas foi isto. Sobraram alguns proto-contos inacabados que continuam na gaveta, passe a expressão (hoje em dia nenhum escritor tem "gaveta" ou "baú", não no sentido de Tolkien, por exemplo; uma pasta no ambiente de trabalho do portátil serve perfeitamente), e os vários projectos de coisas maiores que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que jamais serão concluídos. Não é da minha natureza acabar o que quer que seja; e há dias em que as sinopses que escrevo (sou muito bom a fazer sinopses das minhas próprias histórias) parecem-me ser suficientes.
Isto ocorreu-me quando ontem li um conto muito pequeno e muito simples de Bram Stoker intitulado Dracula's Guest, que me maravilhou quase tanto como a obra-prima do velho Stoker, Dracula, cuja leitura também concluí ontem. Ao conto primeiro: Dracula's Guest é uma narrativa tão curta que é difícil perceber como pode ser tão boa. As descrições, enfim, são um assombro, revelando a enorme capacidade de Stoker para, e perdoem-me o recurso ao inglês, establish mood (mood, como se sabe, é uma palavra intraduzível) e conduzir o leitor a um clímax improvável e francamente arrepiante. E são deixadas por resolver pontas soltas em quantidade suficiente para o leitor se entreter.
Sobre Dracula: lê-se o primeiro capítulo e percebe-se o motivo pelo qual esta obra, mais do que ser considerada um clássico da literatura fantástica/gótica/de terror, é um clássico da literatura em geral. O leque de personagens é fantástico - de Jonathan Harker a John Seward, de Mina Murray a Abraham Van Helsing, de Renfield ao próprio Conde Drácula - e a estrutura narrativa é do melhor que já encontrei em livro. A narrativa é epistolar, composta por passagens dos diários e por memorandos das várias personagens, juntamente com telegramas ou alguns artigos de jornal. Parece aborrecido, mas funciona surpreendentemente bem, dado à leitura um ritmo único, que contribui em larga medida para a atmosfera sombria que Stoker concebeu (tal como as suas vivas descrições). Há passagens nas quais é impossível não sentir um arrepio, ou pelo menos uma vaga sensação de desconforto - mas é igualmente impossível colocar o livro de lado. Exemplo disso é a descoberta, por Harker, das saídas nocturnas de Drácula; ou as passagens que dão conta do delírio sonâmbulo de Lucy (para não mencionar passagens que denunciem demasiado o curso da história).
Dracula é leitura que recomendo: numa época em que os vampiros são tão maltratados, vale muito a pena ir aos clássicos - talvez ao clássico maior - e compreender o motivo pelo qual estas criaturas da noite inspiraram tanta literatura (e cinema) ao longo das décadas. E o motivo pelo qual continuarão a fazer parte dos mais tradicionais cânones dos géneros fantásticos, quando a actual febre adolescente passar por fim.
john "
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:46
Domingo, 21.02.10
Do Vontade Indómita, "a viagem que valeu apenas o que valeu", "no Inverno do [seu] descontentamento". "Dos slides que voltaram [consigo] escolheram-se dez. Expostos agora em grande formato no Museu do Oriente até dia 4 de Abril."
"Estávamos em 2005, no Inverno do meu descontentamento e a meio do Verão Indiano. Aterrei em Mumbai de madrugada e sem nada marcado apanhei um rick-shaw para me levar para algum ponto da cidade afastado do centro. Largou-me trinta minutos depois à porta de uma pensão. Os passeios estavam cobertos de homens e mulheres a dormir, enroscados uns sobre os outros; havia cães, também. O meu quarto tinha como janela uma gelosia quebrada e dela percebia o silêncio da rua e da noite. Adormeci enrolado num lençol como se fosse uma mortalha egípcia, esquecendo-me assim dos mosquitos e das ratazanas que se faziam sentir. Quando acordei, com a azáfama urbana, defini o mais próximo de um programa para os dias seguintes. Fotografar Darukhana — os homens e os barcos — e seguir depois para noroeste em direcção ao Paquistão, numa viagem de 16 horas de comboio até Ahmadabad, no estado do Gujurat. Dali logo veria o que fazer. Instalei-me num hotel muçulmano com ventoinha e calcorreei a cidade de uma ponta à outra. Os dias passaram e as fotografias começavam a contar uma história. Uma vez em Ahmadabad, segui de autocarro para Bhavnagar, povoação distante com sabor a pó. Estava a menos de 50 quilómetros de um dos meus destinos principais: os estaleiros de shipbreaking. Os dias seguintes foram passados entre lentas manobras burocráticas para conseguir uma autorização para os visitar. Fechavam-se portas; mais do que se abriam. Mudei-me para outra povoação, mais a sul. Quando adoeci, estava alojado na única pensão da terriola, misto de hotel e bordel. A noite foi de um horror solitário, entre vómitos e velhos fantasmas, acompanhado unicamente com o barulho das putas e dos clientes no corredor. Quarenta horas depois estava numa cama do Brittish Hospital, em Goa, chegado mais morto que vivo. Por lá fiquei os oito dias seguintes, a soro e delírios, até à lenta recuperação da tão esperada independência. Depois, nas praias do sul, convalesci. Ao ponto de sentir-me novamente capaz de viajar e voar. Para o Bangladesh. Em Dhaka tinha um amigo, e esse amigo, sendo muçulmano, fez com que todos os seus amigos fossem meus amigos também. Falou-me da sua cultura e anos mais tarde convidou-me para o casamento. Não pude ir, mas nesses dias fui pela costa, atravessando um país de água, outra vez à procura dos barcos desossados e das suas carcaças que marcam o território. Fotografei-os nas proximidades de Chittagong. Ao segundo dia o grupo terrorista Jama'atul Mujahideen Bangladesh fez explodir bombas pela cidade. Regressei à Índia e de lá para cá, pensando agora que a viagem valeu apenas o que valeu. Dos slides que voltaram comigo, escolheram-se dez. Expostos agora em grande formato no Museu do Oriente até dia 4 de Abril. A inauguração é hoje, dia 19 às 18.30h. "
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:42
Quinta-feira, 18.02.10
De Pedro Correia no Delito de Opinião, esta viagem pelos filmes de 2009 "que valorizam o argumento", "a espessura psicológica das personagens" e as "subtilezas do diálogo". E em que a família surge como "eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também".
" A família no início e fim de tudo

A família continua a ser matéria-prima essencial da ficção cinematográfica, como os filmes exibidos entre nós em 2009 bem demonstraram, na linha de uma sólida tradição dramática do cinema clássico. Algumas das melhores longas-metragens que pudemos ver no ano passado tiveram a família como eixo central da narrativa, nas suas diversas facetas e em variados registos, da comédia ao drama. A busca desesperada de uma mãe que perdeu um filho (A Troca, de Clint Eastwood), a insuperável dor do luto (Incendiário, de Sharon Maguire), o desgaste da rotina conjugal (Revolutionary Road, de Sam Mendes), o complexo de Édipo revisitado ao som de partituras clássicas (no incompreendido Tetro, de Francis Ford Coppola). As quatro paredes domésticas como cenário dos mais complexos dramas psicológicos (O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, e Duplo Amor, de James Gray). A cegueira física como metáfora da diluição do amor (Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar). As memórias dolorosas suscitadas por um repasto familiar nesse filme assombroso que é Um Conto de Natal, de Jean-Paul Roussilon). A velhice nostálgica mas ainda sorridente (Almoço de 15 de Agosto, de Gianni di Grigorio). Uma inesperada catarse provocada pelo desamparo da viuvez (no fabuloso Gran Torino, de Clint Eastwood, sem dúvida já uma das obras mais marcantes da década).

Filmes muito diferentes mas com características comuns. Este é um cinema que valoriza o argumento, que acentua a espessura psicológica das personagens, que sente um especial fascínio pelas subtilezas do diálogo. E é fundamentalmente um cinema de actores, que nos fornece sobretudo um excepcional naipe de interpretações femininas. Como esquecer o olhar dilacerado de Angelina Jolie n' A Troca - até à data o melhor papel da sua carreira? Impossível ficar indiferente à revolta interior da deslumbrante Michelle Williams nas cenas fulcrais de Incendiário ou à transfiguração de Anne Hathaway numa inspirada actriz dramática em O Casamento de Rachel. E quem supõe que o cinema é uma arte em declínio deverá reparar no subtil jogo de alterações fisionómicas que acompanha a evolução da personagem de Kate Winslet em Revolutionary Road.
A família: eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também. "

Imagens:
1. Anne Hathaway e Rosemary DeWitt, em 'O Casamento de Rachel'
2. Mathieu Amalric e Catherine Deneuve, em 'Um Conto de Natal'
3. Gwyneth Paltrow e Joaquin Phoenix, em 'Duplo Amor'
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:38
Terça-feira, 16.02.10
Lembrei-me deste paralelismo entre o percurso de um colectivo e o crescimento, a maturidade individual.
O percurso de um colectivo é sempre atribulado e implica cortes e rupturas, solavancos e sacudidelas. Há fases de acalmia e de equilíbrio, não necessariamente o equilíbrio desejável, mas o conveniente a quem domina, e nessas fases o poder tenta consolidar a sua influência.
Quando a situação ultrapassa os limites do suportável, há um sinal de alarme. Pode ser apenas um sinalzinho luminoso intermitente, silencioso, mas fica ali a piscar, a piscar.
Como previsto, e o poder é quase sempre previsível, quem domina a situação tenta minimizar aquele sinal de alarme, aquela perturbação é para apagar, quem são os histéricos?, os ignorantes?, os saudosistas?, os ambiciosos? (1)
E o alarme ali, teimosamente, a piscar.
O poder reage, em todos os locais onde o alarme piscar, lá estarão os apagadores de alarmes a tentar minimizar a luzinha intermitente.
Mas agora até o filósofo, que falara no tempo dos antecessores, nessa outra situação, vem de novo alimentar a luzinha intermitente: já não é só medo de existir, é o não dito e, pior!, o não inscrito. Como argumentar se é tão evidente essa negação constante, essa não-permanência, essa não-continuidade? Esse eterno presente sem passado nem futuro, essa promessa vazia, não-concretizável? E em que o outro não tem razão, a sua opinião não é válida, não existe?
Aqui o poder hesita e resolve lançar a confusão. É nesta fase que nos encontramos, vozes desencontradas, agitadas, agressivas, entrincheiradas. É o clima ideal, adequado, à não reflexão.
Só que o sinal de alarme já é mais luminoso e não se deixa apagar. Não se deixa envolver em agitações de circunstância. Observa e pensa, com a distância emocional necessária para observar correctamente e pensar de forma eficaz. (2)
(1) Já respondi ali atrás a todas estas críticas ao primeiro sinal de vida do cidadão comum, a petição e a manifestação "Todos pela Liberdade", mas ainda faltava esta da ambição. Aceito. Querem lá ambição maior do que esta, da liberdade? Querem lá ambição maior do que uma democracia de qualidade?, de uma vida colectiva baseada no respeito mútuo e na confiança?, do direito de todos o cidadãos a uma vida livre de condicionalismos insuportáveis, de fracturas sociais, de alterações súbitas de valores e formas de vida, da domesticação sistemática?, do direito a uma vida digna, em que cada cidadão existe para além da sua condição de eleitor e contribuinte, escravo portanto, o que sustenta a máquina e os seus caprichos e aventureirismos?
(2) É claro que numa comunidade humana, baseada na natureza humana, nem todos os sinais de alarme são motivados pelas melhores razões, as da defesa da qualidade de vida de um colectivo, de uma comunidade, de um país. Mas quando uma comunidade deixar de ter sinais de alarme, a avisar excessos e desvarios, estará perdida.
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:16
Sábado, 13.02.10
Que semana esta! Como é possível que uma pessoa como eu, que já passou há muito a fase da idade impressionável, ainda se deixe envolver pela emoção e entusiasmo, só por causa de um primeiro sinal de vida do cidadão comum, por exemplo?
Mas foi mesmo assim. Outras novidades entretanto me emocionaram, por razões diferentes, mas aquele primeiro sinal de vida foi o que me pôs o coração a bater mais depressa e a meter-me a caminho.
Se esta iniciativa alterou alguma coisa? Se teve algum impacto? Ainda é cedo para o dizer.
Mas no plano simbólico foi significativa. É um primeiro sinal de vida. De uma sociedade civil que já se dava como amorfa, indiferente, em estado comatoso.
Se as opiniões pós-manifestação me impressionaram ou incomodaram? Não, mas deixaram-me perplexa. O que é que os críticos da manifestação entendem por liberdade? A mim não me incomoda nada quem não esteve lá. São tão livres de não estar como eu de estar.
Quanto aos comentários deselegantes e até grosseiros, porque a ironia inteligente não é o seu forte, também não me incomodam nada, a não ser as emoções que revelam, esse subterrâneo de agressividade que os caracteriza: ódio e raiva, por exemplo, são emoções que me desagradam, confesso.
Quanto ao trabalho jornalístico, uma desgraça. No "Público" o texto refere mais de 100 pessoas mas na fotografia aparece apenas uma: um senhor segura um cartaz e por trás vemos a escadaria, a Assembleia e um triângulo de céu azul. Bonito! Quem não passou em frente do grupo, isto é, a maior parte dos leitores do "Público", ficou com a ideia, erradíssima, da geração da maioria dos participantes da manifestação, por exemplo. E esse seria o dado essencial da manifestação. Pois é, falharam no essencial: a maioria dos participantes pertence às gerações pós-revolução de 74. Eu apontaria mesmo para uns 80%, os manifestantes nascidos nos anos 70 e 80. Isto já diz muito do significado da manifestação. Uns 15%, das gerações que eram crianças ou adolescentes (o meu caso) na revolução de 74. E os tais 5% da geração representada pelo senhor da fotografia. Que rico jornalismo o do "Público"!
Aqui também se iniciou um novo conceito de manifestação: deixa de ser a pose ou o slogan, para ser um encontro descontraído de pessoas que partilham uma ideia e uma mensagem. Essa ideia e essa mensagem é transmitida através de uma petição que é entregue no local adequado.
A presença das pessoas ganha outro significado: estão lá, sabem porque estão lá, e isso lhes basta. No final, a promotora da petição agradece a presença de todos e batem-se palmas.
Esta cultura do encontro, numa ideia e numa mensagem que une um grupo heterogéneo de pessoas, esta cultura da amabilidade e do respeito pelas diversidades, é uma lufada de ar fresco para quem viveu numa cultura de autêntica divisão por subgrupos, essa pressão insuportável e medíocre de ideias feitas e de preconceitos.
Esta cultura do respeito e da amabilidade na diversidade é a adequada numa democracia de qualidade.
Penso ter apontado o essencial desta petição e desta manifestação: há aqui um salto cultural e geracional. É esse, a meu ver, o seu primeiro significado.
Nasce nos blogues e no twitter (o que me agrada pensar que o José Manuel Fernandes faz muitos mais estragos à cultura da seita das pressões, no twitter, do que fazia no "Público"!), nesse espaço de liberdade, num universo paralelo ao dos jornais e das televisões, onde a liberdade está cada vez mais ausente.
Outro significado: não há qualquer hipótese hoje em dia de manter esta cultura da mediocridade. Pode levar mais tempo do que desejaríamos, mas este é o primeiro sinal desse salto cultural e geracional, queiram ou não admiti-lo.
Recentemente um amigo, numa conversa animada sobre séries de televisão, ao ver quais as minhas preferidas, referiu de forma certeira: Gostas de ver resultados rápidos.
É verdade, nunca apreciei séries como os Perdidos, que ele acompanha desde o início, por exemplo.
O nosso Alan Shore (Boston Legal) resolve os casos em tribunal e ficamos logo a saber o veredicto. Mesmo na série Flashforward vamos tendo alguma informação que nos permite ir compondo o puzzle final. E agora, na Lie to Meos resultados estão logo à vista, na observação científica das reacções faciais e corporais das pessoas. Vale a pena ver. A sério! Já aprendi uma ou duas reacções que revelam a mentira, por exemplo. É muito útil. Também já consigo identificar o ódio, a raiva, o desprezo, apenas pela expressão facial.
Bem, sobrevivi a esta semana e é isso que importa.
Correcção estatística: Depois de ver alguns vídeos da manifestação, talvez deva corrigir aqui as minhas primeiras estatísticas. Embora não se trate de nenhum estudo sociológico, gosto de analisar os fenómenos e aqui a representação por gerações tem um significado para mim.
Assim, talvez a minha geração e a imediatamente posterior, isto é, as que eram crianças e adolescentes na revolução de 74, estejam melhor representadas do que inicialmente contabilizei: em vez dos 15%, aí uns 30%. Mas ainda assim, as gerações pós-revolução de Abril são as que compareceram em maior número.
A meu ver, a distinção direita-esquerda é secundária. Porquê? Porque ninguém tem o monopólio do respeito pela liberdade. Essa consciência é individual, não é colectiva. Começa em cada indivíduo. Isso é que determina como se vai comportar no colectivo.
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:12
Quarta-feira, 10.02.10
Quando era miúda havia na televisão (a preto e branco e de um só canal) uma série que adorávamos: Os Vigilantes da Floresta. Um grupo de rapazes e raparigas que protegia a floresta de incêndios, cortes ilegais, etc. Tinham sempre que fazer, como se calcula, porque a protecção de uma floresta exige prevenção. E os nossos heróis eram muito previdentes, estavam sempre atentos, e sobretudo, vigilantes.
Hoje já não há séries assim. Quando espreito as séries que os miúdos vêem fico arrepiada. Muita tecnologia mas pouca inspiração para uma responsabilidade individual ou uma acção cívica, colectiva. Vejo violência, emoções básicas como o ódio, a vingança, a destruição pura e simples.
Mas voltando aos nossos vigilantes, é essa atitude que eu esperava há que tempos da sociedadade dita civil, a do cidadão comum! Um único sinal de vida! Porque uma sociedade dita civil que esteja sossegadinha, caladinha, indiferente, amorfa, é uma sociedade doente.
Tudo o que vale a pena exige atenção, cuidados, vigilância. Prevenção. Todos os dias. Refiro-me a coisas tão simples como a democracia, a liberdade, uma vida colectiva saudável, baseada na confiança. Confiança uns nos outros e confiança nos responsáveis de cada área de gestão do nosso colectivo.
O primeiro sinal de vida e iniciou-se na blogosfera! Foi essa a minha alegria, uma Primavera antecipada!
Se há uma onda de histeria? Não sei que fenómeno surge após uma apatia prolongada, não sei o que vem imediatamente a seguir ao desânimo... um entusiasmo febril?
Se há motivações mais egocêntricas? Cada um age segundo a sua própria consciência. Mas de uma coisa estou segura: muitos de nós sentir-se-ão reconfortados por saber que não estamos sozinhos no nosso cantinho, que afinal somos muitos a pensar o nosso colectivo, atentos ao que se passa. E agora mais do que atentos, vigilantes.
Se há oportunismo? E isso pega-se? Santo Deus!, o oportunismo pré-existe em todas as áreas da nossa vida colectiva. Faz parte. Uns criam, constroem, outros penduram-se e ficam com os louros. Existe em todo o lado. Hoje onde existe até mais oportunismo é no próprio estado, na sua cultura de raíz, intrínseca, que vê o cidadão apenas enquanto eleitor e contribuinte. Querem maior oportunismo do que esse, fazer negociatas com o trabalho do contribuinte? Sem dúvida que o monopólio do oportunismo pertence hoje ao estado.
Como os Vigilantes da Floresta, é assim que vejo esta iniciativa. Um primeiro sinal do cidadão comum a exigir os esclarecimentos que nos são devidos, uma informação verdadeira, correcta, adequada.
Um primeiro sinal de alarme também: o que falhou? O que está a falhar? A nível dos responsáveis pela gestão do poder.
Um primeiro sinal da necessidade urgente de uma reflexão colectiva profunda e abrangente, da decadência geral das áreas-chave da democracia.
Se o manifesto interpela directamente o PM? Bem, se é o responsável da gestão do nosso colectivo com mais poder actualmente (poder a mais, a meu ver, mas o sistema deu-lho e daria mais se não houvesse aquele pormenor tão português da violação do segredo de justiça)... é natural que seja ele o interpelado, não é?
Se é um ataque pessoal? Não o vejo assim. Para mim o que está hoje em causa é o próprio sistema democrático, a sua organização, e o próprio regime, que neste momento me parece incompatível com a democracia. Se queremos uma democracia com tudo o que implica, participação, vigilância, responsabilidade, este sistema e este regime como estão, não servem.
Assim sendo, estão todos envolvidos na reflexão. Terão de ser avaliados pelo seu desempenho: governo, partidos, áreas-chave como a Justiça, a Procuradoria-Geral da República, o Banco de Portugal, a ERC, a da concorrência dos mercados (terei de ir ver qual é a designação). É que parece que só o Tribunal de Contas está a funcionar de forma eficaz, além da máquina fiscal, claro!, afinal é de lá que vão retirar parte do money money para os seus excessos e desvarios...
O cidadão comum quer ser esclarecido, em primeiro lugar sobre o que realmente se passou a nível do condicionamento da informação a que tem direito. Certo?
Porque se o cidadão comum tivesse tido acesso, como era seu direito, à informação correcta sobre os números reais do défice, da dívida pública, do desemprego, da emigração, do estado real do país, e não à ficção generalizada nos jornais e nas televisões, talvez até os resultados das últimas eleições tivessem sido ligeiramente diferentes, não acham? É essa a dimensão da liberdade num país democrático: direito a uma informação fidedigna.
Se um dia destes se fizer a anatomia das últimas eleições legislativas, vai ser interessante perceber até que ponto todo o sistema esteve envolvido na mentira oficial. Todo o sistema.
Ah, já me ia esquecendo: Também se chamou a esta manifestação um folclore. Tudo bem. Aceito. Sempre será um folclore mais criativo do que o folclore transmontano (a perspicácia de Pacheco Pereira...), com que nos bombardearam diariamente estes 5 anos...
As tentações partidocráticas: Espero que o cidadão comum se consiga distanciar de todas as tentações partidocráticas e não se deixe envolver pelas seduções de circunstância. É natural que os políticos sintam o ímpeto, o impulso (porque isso está-lhes na massa do sangue), de navegar na onda de um movimento da dita sociedade civil. Só nos faltava mais essa interferência, ainda por cima quando a avaliação e a reflexão que se exige, e que espero se inicie agora, envolve os próprios partidos, os da gestão do poder e os da oposição! Que escolham outros timings, que não façam coincidir as suas agendas políticas com iniciativas do cidadão comum, da dita sociedade civil. É o mínimo que se lhes pede.
Autoria e outros dados (tags, etc)
publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:18